20/07/2026 16:11:49
Valdenice Guimarães
As tragédias humanas são apenas atuais?

As tragédias humanas são apenas atuais?

Jarlam S. Souza


Há muito tempo, as notícias deixaram de apenas registrar a tragédia humana; passaram a persegui-la. Encerrada uma cobertura, inicia-se imediatamente a caça pela próxima dor capaz de ocupar manchetes, telas e conversas. A impressão é que o sofrimento se tornou a principal matéria-prima da informação.

O paradoxo é evidente: quase nada do que é noticiado é realmente novo. A violência, a corrupção, a miséria humana, os desastres e as guerras acompanham a humanidade desde seus primórdios. O que muda são os personagens, os cenários e as datas. Ainda assim, cada tragédia é apresentada como um acontecimento absolutamente inédito, alimentando a sensação de espanto permanente. Isso é resultado de um analfabetismo histórico, tema do próximo texto.

Nessa lógica, a memória torna-se curta, seguindo a lógica das redes sociais, cada vez mais descartáveis. A comoção tem prazo de validade e a dor coletiva é rapidamente substituída pela seguinte. O sofrimento de ontem perde espaço para o de hoje, não porque tenha sido resolvido, mas porque deixou de ser novidade. A notícia precisa de impacto constante, e a tragédia humana oferece esse combustível.

A triste realidade dessa dinâmica é transformar o sofrimento humano em espetáculo e a indignação em um sentimento descartável. Acostumamo-nos a consumir desgraças em sequência todo santo dia, enquanto as causas profundas dos problemas permanecem quase sempre as mesmas e recebem muito menos atenção do que seus efeitos.

Com a capacidade de acesso às informações de forma instantânea na palma da mão com nossos telefones, vivemos como espectadores do grande teatro da vida real, sem quase nenhuma capacidade de estabelecer a relação causa e efeito daquilo que nos torna seres humanos pensantes.

Uma imprensa livre é indispensável para nosso desenvolvimento, para a democracia, mas também precisa refletir sobre o papel que desempenha ao escolher o que enfatiza e como narra os acontecimentos. Vemos e escutamos muitas notícias do cotidiano como se fossem algo nunca visto no planeta. Há um grande amadorismo, ignorância ou má fé mesmo de alguns veículos de comunicação. Informar não deve significar apenas revelar a dor, mas ajudar a compreendê-la, contextualizá-la e acompanhar suas consequências. Caso contrário, continuaremos presos a um ciclo em que a tragédia é sempre tratada como novidade, quando, na realidade, ela apenas revela feridas antigas que a sociedade insiste em não curar.

Jarlam S. Souza.
Professor de Língua Portuguesa
Policial Civil de Alagoas
Integrante do Grupo de Estudos "Discussões Literárias, Fortalecendo Amizades"

E-mail: portaltodosegundo@hotmail.com
Telefone: 3420-1621

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