
A eleição passa. O palanque desmonta. O político segue sua vida. Mas a amizade rompida, a família dividida e a palavra que machucou podem permanecer por muito tempo.
Até quando o eleitor vai transformar preferência política em guerra pessoal?
É preciso fazer uma pergunta incômoda: vale a pena brigar com seu irmão, com seu amigo ou com seu vizinho por causa de um político?
A campanha termina. As bandeiras são recolhidas, os discursos diminuem, os santinhos desaparecem das ruas e os candidatos voltam para suas casas, seus gabinetes e suas agendas.
Mas o eleitor, muitas vezes, fica com o quê?
Com a promessa que não foi cumprida. Com a expectativa frustrada. E, em alguns casos, com uma relação destruída por uma discussão política que sequer deveria ter acontecido.
Enquanto você perde uma amizade defendendo político, será que o político está preocupado com a sua amizade?
Enquanto você discute nas redes sociais, xinga e ataca quem pensa diferente, será que aquele candidato está fazendo o mesmo por você?
Talvez seja hora de inverter as prioridades.
Defenda seu irmão.
Defenda a mãe que enfrenta diariamente as dificuldades para cuidar de um filho que precisa de atenção especial.
Defenda a pessoa que espera por uma cirurgia.
Defenda o trabalhador que luta para colocar comida dentro de casa.
Defenda a idosa que recebe uma aposentadoria apertada e, muitas vezes, precisa escolher entre comprar o remédio ou colocar alimento na mesa.
Defenda quem precisa de voz.
Defenda quem não tem acesso aos corredores do poder.
Porque é muito fácil defender um político quando você está atrás de uma tela. Difícil é olhar para quem está ao seu lado e perguntar: “O que eu posso fazer para ajudar?”
E antes que alguém diga: “Mas o meu político é bom!”, cabe outra pergunta:
Bom para quê?
O que ele fez de concreto?
Quanto investiu?
Quanto entregou?
Quem foi beneficiado?
Qual foi a transformação real na vida das pessoas?
Não basta repetir slogans, compartilhar vídeos e acreditar cegamente em discursos. Política precisa ser acompanhada com espírito crítico. Político não é santo, não é parente e muito menos dono da verdade.
Político é funcionário público.
Recebe mandato para representar a população. E quem vota tem o direito — e o dever — de cobrar, questionar, discordar e mudar de opinião.
O problema começa quando a paixão política ultrapassa o limite do respeito.
Quando o eleitor deixa de discutir ideias e passa a atacar pessoas.
Quando o adversário político deixa de ser alguém que pensa diferente e passa a ser tratado como inimigo.
Quando uma eleição transforma irmãos em adversários, amigos em desafetos e famílias em campos de batalha.
Isso não é consciência política. É fanatismo.
Você pode votar em um candidato. Pode defendê-lo. Pode acreditar no projeto dele. Pode fazer campanha.
Mas precisa aceitar que outra pessoa tem o mesmo direito de pensar diferente.
A democracia não existe para que todos concordem. Ela existe justamente porque somos diferentes.
E existe uma ironia nisso tudo: enquanto milhares de eleitores brigam gratuitamente por políticos, os próprios políticos frequentemente conversam, negociam e sentam à mesma mesa quando seus interesses estão em jogo.
Então, antes de romper uma amizade por causa de eleição, pare e pense.
Aquele político faria o mesmo por você?
Antes de atacar seu irmão porque ele vota diferente, pergunte se vale a pena perder alguém importante por uma disputa que, daqui a alguns meses, talvez nem seja lembrada.
A campanha passa.
O mandato passa.
O discurso passa.
A promessa passa.
Mas a família fica. A amizade fica. O respeito fica.
Por isso, talvez esteja na hora de mudar o conceito sobre política.
Não coloque político no lugar de irmão.
Não coloque candidato no lugar de amigo.
Não transforme uma escolha eleitoral em uma guerra dentro de casa.
Defenda políticos com argumentos. Mas defenda pessoas com atitudes.
Porque, no fim das contas, o político que você tanto defendeu pode nem saber o seu nome.
Mas aquele irmão que você atacou por causa dele talvez estivesse ao seu lado quando você mais precisou.
Pense nisso. Repense suas prioridades.
Na próxima eleição, vote em quem quiser.
Mas não deixe que o seu voto faça você perder quem realmente importa.

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