
Em tempos em que a população cobra mais transparência e eficiência do poder público, a recomendação do Ministério Público de Pernambuco em São Bento do Una escancara uma prática que insiste em sobreviver: o uso da máquina pública como extensão de interesses pessoais e familiares.
Não se trata apenas de uma formalidade jurídica. Quando esposa, filho, sobrinho e até afilhado ocupam cargos estratégicos dentro de uma mesma gestão, a discussão deixa de ser técnica e passa a ser ética. A linha que separa confiança política de favorecimento pessoal se torna tênue — e, neste caso, parece ter sido ultrapassada.
A recomendação assinada pelo promotor Márcio Freitas vai além de uma simples orientação administrativa. Ela toca no coração de um problema histórico no Brasil: o nepotismo travestido de “nomeação política”. Ainda que a legislação e a própria Supremo Tribunal Federal admitam exceções em cargos políticos, a repetição de vínculos familiares no alto escalão transforma exceção em regra — e regra em privilégio.
É preciso dizer com todas as letras: gestão pública não é herança, nem extensão de sobrenome. Quando o poder se concentra dentro de um núcleo familiar, a impessoalidade — um dos pilares da administração pública — perde espaço para a lealdade pessoal. E quem paga por isso é o cidadão, que fica refém de decisões que podem não priorizar o interesse coletivo.
A exigência de exoneração em até 20 dias coloca o prefeito Alexandre Batité diante de uma escolha clara: alinhar sua gestão aos princípios constitucionais ou sustentar um modelo que flerta com a ilegalidade e fere a moralidade administrativa. Mais do que cumprir uma recomendação, trata-se de dar uma resposta à sociedade.
Outro ponto que chama atenção é a necessidade de regularização do Portal da Transparência. Em um cenário onde informações básicas ainda precisam ser cobradas pelo Ministério Público, fica evidente que o problema não está apenas nas nomeações, mas em uma cultura de pouca prestação de contas.
A proposta de envio de um projeto de lei para barrar o nepotismo de forma permanente é, talvez, o aspecto mais importante dessa intervenção. Porque não basta corrigir o presente — é preciso impedir que o futuro repita os mesmos erros.
No fim das contas, a pergunta que fica é simples, mas incômoda: até quando a política municipal será tratada como um negócio de família?
Se a resposta não vier com ações concretas, ela virá nas urnas — e, muitas vezes, tarde demais para reparar os danos causados.

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