26/08/2026 16:52:23
Alagoas
Alagoas lidera ranking nacional de violência invisível contra mulheres
Pesquisa revela que 36% das mulheres no estado viveram situações compatíveis com abuso
Reprodução Alagoas lidera índice de mulheres que sofrem violência sem reconhecer o abuso
Todo Segundo

Alagoas aparece no centro de um dos mais preocupantes alertas sobre a violência contra a mulher no Brasil. Dados do Mapa Nacional da Violência de Gênero revelam que o estado registra o maior percentual do país de mulheres que passaram por situações compatíveis com violência doméstica ou familiar, mas não reconheceram ou não identificaram espontaneamente aquilo que viveram como violência.

O índice chega a 36% em Alagoas, o maior entre os estados brasileiros e acima da média nacional. Amazonas aparece em seguida, com 35%, enquanto Acre e Tocantins registram 34%.

O levantamento foi divulgado na última terça-feira (25), e integra a 11ª edição da Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, realizada pelo DataSenado, com coleta de dados da Nexus.

O dado mais alarmante da pesquisa está justamente na diferença entre o que as mulheres vivem e aquilo que conseguem reconhecer como violência.

Quando questionadas diretamente, apenas 4% das brasileiras disseram espontaneamente ter sofrido violência doméstica ou familiar nos 12 meses anteriores.

Mas o cenário mudou completamente quando as entrevistadas foram questionadas sobre episódios específicos — sem que a palavra "violência" fosse apresentada na pergunta.

Nesse caso, 33% das brasileiras relataram situações compatíveis com violência.

A diferença revela uma realidade silenciosa: milhões de mulheres podem estar enfrentando agressões, ameaças, controle, humilhações ou outras formas de abuso sem necessariamente identificar essas experiências como violência doméstica ou familiar.

Quase 29 milhões de brasileiras foram atingidas

A pesquisa estima que aproximadamente 29 milhões de mulheres foram vítimas de situações de violência doméstica ou familiar no Brasil em apenas 12 meses.

Desse total, cerca de 24,97 milhões não reconheceram ou não nomearam espontaneamente as experiências vividas como violência.

O resultado expõe uma enorme distância entre a violência existente dentro dos lares e aquilo que chega às estatísticas oficiais.

E é justamente nesse ponto que o cenário de Alagoas ganha dimensão nacional.

Com 36%, o estado apresenta o maior percentual de mulheres que relataram situações de violência sem identificá-las espontaneamente como tal.

Outro número ajuda a dimensionar o tamanho do problema.

Entre as mulheres que declararam ter sofrido violência, 1,87 milhão não procuraram uma delegacia, o Ligue 180 ou o 190.

Quando esse grupo é somado às mulheres que vivenciaram situações de violência, mas não as reconheceram espontaneamente, chega-se a 26,84 milhões de brasileiras.

Isso representa 93,6% das vítimas fora da busca por proteção policial.

O resultado mostra por que os registros de ocorrências, atendimentos de saúde e processos judiciais, embora fundamentais, não conseguem sozinhos revelar a dimensão real da violência contra as mulheres.

Para especialistas, os números mostram que o enfrentamento à violência precisa começar antes mesmo da denúncia.

A mulher que não reconhece determinado comportamento como violência dificilmente irá procurar uma delegacia, pedir ajuda ou acionar os mecanismos de proteção.

Segundo Beatriz Accioly, gerente de Políticas Públicas pelo Fim da Violência contra as Mulheres do Instituto Natura, os dados indicam que a necessidade real de proteção e atendimento é muito maior do que aquela que chega aos serviços públicos.

O problema, portanto, não está apenas na quantidade de casos registrados, mas também na parcela de mulheres que permanece invisível para a rede de proteção.

Violência também deixa marcas na rotina

A pesquisa mostra que as consequências vão muito além do momento da agressão.

Entre as mulheres que declararam ter sofrido violência doméstica ou familiar praticada por um homem, 69% disseram que o episódio afetou a rotina diária.

O impacto foi ainda maior em alguns estados. No Tocantins, por exemplo, chegou a 78%. Em Pernambuco, ficou em 58%.

O levantamento também aponta a vulnerabilidade econômica como um fator importante. No Brasil, 56% das mulheres vítimas vivem em famílias com renda de até dois salários mínimos.

Dentro de casa está o principal agressor

O ambiente doméstico também aparece como um dos principais cenários da violência.

Em 62% dos casos, o agressor era o marido ou companheiro da vítima.

O índice chega a 73% no Acre e a 48% no Distrito Federal.

O dado reforça uma característica conhecida da violência doméstica: muitas vezes, o agressor está dentro da própria relação afetiva e possui vínculo direto com a vítima.

Alagoas diante de um desafio que vai além das estatísticas

O percentual de 36% em Alagoas não representa apenas uma posição em um ranking nacional. Ele revela um desafio para toda a rede de proteção às mulheres no estado.

O dado sugere que existe uma parcela expressiva de alagoanas vivendo experiências que podem configurar violência, mas que não são percebidas, reconhecidas ou verbalizadas dessa maneira.

Por isso, o enfrentamento passa não apenas pelo aumento das denúncias, mas pela capacidade de informar, orientar e ajudar mulheres a identificar os sinais de uma relação abusiva e conhecer os caminhos para buscar proteção.

A principal mensagem deixada pela pesquisa é contundente: o que aparece nos registros oficiais pode ser apenas uma pequena parte da violência que realmente acontece.

E, em Alagoas, o alerta é ainda maior. O estado lidera justamente o indicador que revela quantas mulheres podem estar sofrendo violência sem sequer conseguir chamá-la pelo nome.

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