
As mortes decorrentes de intervenções policiais cresceram 54,6% em Alagoas entre 2024 e 2025, segundo dados do 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado nesta quinta-feira (23). O levantamento aponta que o número de vítimas passou de 75 para 116 no período, colocando o estado entre os que registraram maior avanço proporcional nesse tipo de ocorrência.
O crescimento chama atenção porque ocorreu em um cenário diferente da violência letal geral. Enquanto as mortes violentas intencionais apresentaram redução de 6,6% em Alagoas, os registros envolvendo intervenções policiais seguiram na direção oposta e tiveram uma das maiores altas proporcionais do país.
Com o aumento, a participação das mortes em ações policiais no total de mortes violentas registradas no estado também cresceu. O índice passou de 6,6% para 10,9%, o que representa que aproximadamente uma em cada dez mortes violentas ocorridas em Alagoas em 2025 aconteceu durante uma intervenção policial.
Maioria dos casos envolve policiais militares
Ainda de acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, das 116 mortes registradas em intervenções policiais em Alagoas em 2025, 109 foram atribuídas a policiais militares em serviço, seis a policiais civis em serviço e uma a policial militar fora de serviço.
Em 2024, o estado havia registrado 73 mortes envolvendo policiais militares em serviço e duas em ações de policiais civis.
A taxa estadual também apresentou crescimento: passou de 2,3 para 3,6 mortes por 100 mil habitantes.
No Brasil, o avanço foi menor. As mortes decorrentes de intervenções policiais cresceram 5,4%, passando de 6.237 vítimas em 2024 para 6.602 em 2025.
Os dados do levantamento foram fornecidos pelas secretarias estaduais de Segurança Pública, forças policiais e demais órgãos oficiais.
Entre os casos que mais repercutiram no período está a morte do adolescente Gabriel Lincoln Pereira da Silva, de 16 anos, morto durante uma abordagem da Polícia Militar no dia 3 de maio de 2025, em Palmeira dos Índios, no Agreste do Estado.
A morte do jovem provocou forte repercussão e passou a ser acompanhada pela sociedade diante das diferentes versões apresentadas sobre a ocorrência. A família de Gabriel questionou a dinâmica da abordagem, enquanto o caso avançou para a esfera judicial.
O Ministério Público Estadual de Alagoas (MPE/AL) denunciou três policiais militares e pediu a reclassificação do crime de homicídio culposo para homicídio doloso — quando há intenção de matar. A Justiça realiza a fase de instrução do processo, que poderá definir os próximos passos da ação penal.
Os números reacendem o debate sobre o uso da força em operações policiais e colocam casos como o de Gabriel Lincoln novamente no centro das discussões sobre segurança pública, responsabilização e os limites das ações realizadas por agentes do Estado.

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